• Elizandra Souza

“Os brutos também amam": empresários e executivos como sujeitos de desejos e limitações

As exigências do mundo moderno fazem com que homens e mulheres se obriguem constantemente à superação de desafios e obstáculos. E ainda que, se reconheçam como seres humanos comuns, suas superações visam a total eficiência, intimando-os a se posicionarem como super-homens ou super-mulheres.


Esta demanda social é fortíssima para qualquer pessoa, mas quando falamos sobre empresários, executivos ou outras pessoas que assumem posição de comando, a superação se amplia, pois o olhar não é individual, se volta para as questões da empresa, dos negócios e dos colaboradores.



Os empresários e executivos sabem do valor dado ao lado emocional e psicológico de seus colaboradores e como os conflitos que envolvem problemas de comportamento e relacionamento são devastadores para as empresas. São eles que vão gerenciar o funcionamento das atividades empresariais e o funcionamento das relações de seus  colaboradores.

A busca desses homens e mulheres de negócios é por melhores condições de trabalho para aqueles que dependem da empresa, incluindo recursos financeiros e benefícios, pois percebem esta necessidade e visam o desenvolvimento das atividades de forma mais assertiva e satisfatória.

Hoje, tanto nas seleções como nos treinamentos, os aspectos emocionais e psicológicos são avaliados e analisados como condições fundamentais para a manutenção do emprego. Relacionamento interpessoal, inteligência emocional, negociação de conflitos são temas recorrentes nos movimentos dos recursos humanos.

Esta carga de ações e pensamentos exigida do empresário/ executivo, tanto para os resultados dos objetivos da empresa, como para o planejamento e forma de execução, sem nunca esquecer de que lidam com pessoas, que também carregam objetivos, comportamentos, pensamentos e conflitos, ao mesmo tempo que movimenta este empresário/ executivo para o desenvolvimento de seu trabalho, também o afasta de si mesmo e de seus conflitos internos.

Queremos pensar e dar atenção, então, para este sujeito (empresário/ executivo), que assume várias posições dentro da empresa: de comando, liderança, chefia, administração, gerência, mas também se preocupa com a negociação de conflitos, supervisão da qualidade e apresentação de resultados, acumulando uma série de exigências, que quando voltadas para as soluções do trabalho, soluções externas ou dos colaboradores, consegue dar conta, mas, em geral, não voltam seus olhares para suas questões individuais.

Este homem ou mulher de negócios é também um ser de emoções, de alma, que adota os problemas da empresa, dos negócios, dos colaboradores, mas que não sabe lidar com os próprios conflitos. Muitas vezes, é envolvido por questões pessoais que não reconhece como dificuldade ou problema e acaba não podendo resolver. Sem perceber, descontam em pessoas ou objetos, que diretamente não fizeram nada para eles, como cônjuges, filhos, colegas, colaboradores, cachorros, trânsito.

As questões mais íntimas, esses fantasmas ou demônios, surgem para qualquer sujeito e todos sentem certa dificuldade em assumir que seus conflitos existem. Porém, o empresário/ executivo, por ser a pessoa que sempre tem uma carta na manga para solucionar problemas, pois ele é o centro das resoluções, tem mais dificuldade de se perceber numa situação de não saber o que fazer, principalmente, quando este não saber se pontua no si mesmo, nos seus pensamentos e sentimentos.

O sujeito de negócios é visto como o equilíbrio da empresa, o ser da segurança, posto num cargo de grande exigência, não só sobre as questões intelectuais, mas também sobre as questões comportamentais dos colaboradores, contudo não se dá conta de que é um sujeito comum, que sente, pensa, necessita, ama, espera.

O empresário não se permite ter dúvidas; não se permite sentir; não se permite não saber o que fazer consigo e com o que pensa e sente. Não se permite desconhecer. Sofre, e sofre calado, mais do que qualquer outro colaborador, pois sofre sem pedir ajuda, sem poder demonstrar que ali há um ser humano que tem emoções e que também fraqueja.

Por ser considerado e exigido nesta posição, e por ele assumir esta posição, não se permite pequenos pontos de interrogação, como se tivesse em constante resistência. Resiste não como forma de se acreditar melhor do ninguém, não como uma forma de ser arrogante, mas resiste como necessidade, porque se sua posição for abalada, não é só a ele, como sujeito, que a desestruturação acontece.

Carrega as dores, as emoções, os conflitos também daqueles que o rodeiam e mesmo que tente se afastar, a todo momento é chamado a prestar esta atenção, pois é ele que tem que resolver quando há necessidade de um novo treinamento, de uma nova abordagem, de nova solução para aqueles conflitos que estão aparecendo.

Entrar em contato consigo mesmo, com suas emoções, pensamentos, limitações e com seus desejos mais íntimos é uma dificuldade que passa qualquer pessoa. Nós não aprendemos a nos enxergar como sujeitos para além daquilo que é racional. Essa dificuldade é maior para o empresário porque dele é exigido demais, racionalmente. Olhar para si ou cuidar de si não cruzam com as ações desses homens e mulheres de negócios.

É comum estas pessoas, sem perceber, levarem suas questões pessoais para a empresa e vice-versa, quando, por exemplo, se irritam com mais facilidade; quando têm dificuldade para resolver algumas questões, onde o que antes era fácil começou a pesar ou complicar; quando percebem que o que era prazeroso se torna um transtorno, se torna um desafio grande demais; quando não conseguem motivação, nem para si, nem para seus colaboradores.

Não têm a consciência de seus conflitos e fantasmas, mas percebem quando alguns sintomas ficam visíveis, por exemplo, não tendo paciência, se tornando intolerantes, onde as outras pessoas sentem receio em dialogar. Eles se afligem e não sabem como agir, não sabem o que fazer com que está acontecendo com eles e com as coisas a sua volta. Agem de forma constante, rotineira, mecânica, sem parar para pensar ou se questionar sobre o que realmente estão fazendo; sobre se há benefícios ou não naquilo que fazem; sobre o que sentem em relação ao que fazem; aliás, sobre o que, realmente,  sentem. Mesmo porque, quando fazem esta reflexão sofrem, não têm respostas e se sentem num vazio. Apresentam nervosismo, inquietação, indisponibilidade, indisposição, falta de sentido, necessidade de carinho, falta de vontade, constante obrigação a si mesmo, cobrança em fazer, resolver, empreender.

As pessoas que precisam revolver coisas demais, não percebem e não diferem o que são questões próprias e o que são questões externas, pois comumente anulam ou deixam de lado suas aflições, dúvidas e vontades. Conflitos estes, que não são considerados importantes, relevantes ou são impróprios para se pensar no momento, surgem em forma de impaciência, irritação, desatenção, esquecimento, e levam o sujeito a apresentar comportamentos negativos sem perceber. O cuidado de si é sempre posto adiante.

Cria-se uma expectativa em torno desses empresários e executivos, numa relação de dependência, mas assumida somente como a dependência dos outros em relação a eles, de suas ações, de seus planejamentos e de suas soluções. A responsabilidade é carregada com excessos de pressão e permeada pela culpa e possibilidade de erro. O peso é da preocupação, como se a qualquer momento tivesse que tomar uma decisão, que só cabe a ele fazer, que depende somente dele.  Não é só uma pressão demasiada, mas um sentimento de extração, como se fosse, constantemente, sugado. 

Alguns sintomas como medos, angústias, palpitações, dores de cabeça, sudoreses, dor de estômago, ansiedade, nomeados estresse, podem sugerir muito mais que a pressão constante do trabalho ou o esgotamento mental e físico, ainda que estes, também, sejam sinais de necessidade de parada; um pedido do corpo e da alma de um pouco de atenção e cuidado.

Destaco a importância desse olhar-se e sentir-se. Reconhecer-se como um sujeito comum, que também faz interrogações sobre si mesmo. E mais ainda, saber e compreender que quanto mais é assumida e exigida esta posição de administrador, líder, pensador e solucionador, mais deverá ser o cuidado de si, pois o sujeito não é máquina.

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