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  • Elizandra Souza

Jovens no mercado de trabalho

É muito claro, atualmente, a dificuldade enfrentada pelas empresas para encontrar profissionais comprometidos com seu emprego. Ao mesmo tempo, que a demanda por trabalho é grande, a demanda por bons profissionais também cresce. E bons profissionais não são, necessariamente ou somente, os altamente qualificados, mas, principalmente, se buscam profissionais que queiram aprender, que queiram se comprometer, que queiram realmente ser profissionais.


Obviamente, este não é um problema pontual, que está depositado nas empresas. Este problema é consequência de uma construção social e discursiva que se segue desde anos atrás com a tentativa incisiva de flexibilidade profissional. Se há 40 anos o ideal e admirável era o profissional que se estabelecia num mesmo emprego por mais de 20/ 30 anos, a partir dos anos 80/ 90, o ideal profissional foi sendo transformado pelo discurso de não acomodação, ou seja, o profissional que se “prendia” a uma única empresa ou emprego por mais 6/7 anos passou a ser encarado como um sujeito acomodado, inflexível e sem perspectiva.

Outro ponto importante desta mudança conceitual sobre o profissional ideal está no aporte tecnológico que temos hoje. As denominadas “novas tecnologias”, que estão em estado constante de transformação, por isso são sempre novas, exige grande flexibilidade prática do profissional, assim como, este deve ter possibilidade de adaptação aos novos processos de trabalho.

Hoje, temos uma geração que nasceu ou se formou em meio a estes discursos e esta forma “camaleão” de ser, resultando em questões altamente positivas, como em problemas que crescem a cada momento.

Além do comportamento descompromissado, os jovens contemporâneos não possuem referenciais de comportamentos adequados nas empresas. Ainda sob o discurso da não limitação, da liberdade a qualquer preço, os jovens profissionais rejeitam padrões de comportamento que seja considerado apropriado.

Desde o término da ditadura no Brasil, palavras como limite, restrição, censura são consideradas negativas e contrárias ao desenvolvimento e ao progresso. Qualquer forma de determinação de regras de comportamento foi considerada um obstáculo à formação do sujeito. Bandeira levantada pela administração, pela pedagogia, pela psicologia, pela economia, pelas ciências humanas de forma geral, o vislumbre pelo sujeito ideal, enquanto livre e autônomo, foi considerado somente possível se não houvesse modelação de comportamento ou de pensamento. Se o sujeito pudesse escolher por si só seu caminho, se pudesse experimentar todas as coisas do mundo, se não lhe fosse imposto limites ou nenhuma regra limitante, se o sujeito pudesse se movimentar de todas as formas, sem a necessidade de definição, não sendo considerado somente por sua quantidade de produção e trabalho.    

Em entrevistas, seleções e treinamentos os jovens profissionais demostram sua variável fascinação pelo trabalho, que num momento se coloca entusiasmado e logo em seguida se desmotiva. O que será que querem? Quais são seus reais objetivos na vida?  Estas questões são feitas diariamente por empregadores. A geração da informação se transforma na geração do descompromisso, daqueles que não instituem um foco e daqueles que parecem não vislumbrarem um futuro.

A rapidez da informação e das mudanças, frutos do avanço tecnológico, parece atrapalhar a constituição de um desejo futuro. É como se o futuro nunca fosse chegar, pois o presente já é por si só instável.

As empresas sofrem com esta dispersão de objetivos que resulta na alta rotatividade de funcionários. Apesar de pesquisarem e buscarem benefícios para seus colaboradores, acreditando que quanto mais puderem oferecer, mais próximos estarão da estabilidade, percebem que isto não acontece.

Nada satisfaz àquele que nada deseja. O que falta a estes jovens que estão agora no mercado de trabalho é a própria falta, que gera o desejo. Falta a falta. Quando se tem tudo ou se acredita ter tudo, não há o que desejar, portanto não há o que construir, não há o que buscar, não há por que lutar.

Por isso, por mais que as empresas e os empregadores instalem benefícios, não há garantia nenhuma de consolidação profissional destes jovens inseridos no discurso atual. O trabalho com estes profissionais não se institui com treinamentos comumente conjugados, é mais profundo, mais específico e bem mais elaborado.