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  • Foto do escritorElizandra Souza

O adolescente e o crime


Parece impossível compreender como alguém pode cometer assassinato em massa, principalmente quando crianças e adolescentes estão envolvidos. Nossas perguntas são sempre as mesmas, como pode fazer isso, qual a motivação e como evitar?


Esse não saber sobre o outro, sua forma de pensar e agir nos incomoda, ao mesmo tempo que nos faz buscar justificativas sempre distantes do nosso modo de viver e agir para atribuir a atos criminosos. O criminoso é assim visto como um “louco”, irracional ou um ser oposto a mim, que não pensa como eu, não tem a mesma ideologia, não segue os mesmos princípios ou tem desvios.


A psicanálise pode ser um acalanto em certas explicações, mas pode ser também dura, pois implica o sujeito. Para a psicanálise não adianta nada jogar a culpa no mundo e não enxergar aquilo que é próprio do sujeito nesta produção social.


De certo, sabemos que a adolescência sempre se encarregou das transgressões sociais e das transgressões das regras familiares. O adolescente, na sua formação, desconstrói os limites impostos para construir um ser em si, em outras palavras, vai se tornando sujeito na medida em que interroga valores e regras – e por vezes transgride. Essa transgressão não significa crime. Contudo, para haver possibilidade de transgressão é necessário lei, limitação e regras bem estabelecidas.


A transgressão é um mecanismo onde o sujeito revela algo de si que antes estava contida nos limiares familiares ou extra-familiares. A transgressão que contribui para a formação do sujeito está na desobediência à normas familiares, na desobediência às regras escolares. Está na mentira que o adolescente conta para os pais ou quando cabula aula. Está no momento que o adolescente ‘cola’ na prova ou levanta a bermuda da escola para transformar em um shorts curto.


Por isso, seria impossível pensar, via psicanálise, os atos criminosos, sem pensar na construção do sujeito atual. Isto não é uma forma de justificar de atos, mas a constatação de que não é “do nada” que se comete certos crimes.


Enquanto sujeitos, somos produtos e produtores da sociedade, portanto, quando falamos da sociedade, estamos apenas dizendo de um reflexo dos sujeitos que a constroem. E nossa sociedade é percebida hoje como muito permissiva. Um lugar onde o exercício do direito irrestrito e da satisfação deve ser atuado a qualquer custo. Não satisfazer as vontades vira motivo de destruição de si e do outro.


Freud, brilhantemente nos ensinou que somos seres pulsionais – energia que une instinto e afeto – e é isso que nos diferenciamos dos outros animais. Nossas pulsões nos fazem vida, movimento, mas também podem ser destrutivas. E isso significa dizer que viver somente pelas satisfações pulsionais seria impossível, pois seríamos selvagens.


O homem primitivo saiu daquela condição porque exerceu a repressão e organização pulsional, possibilitando a construção da civilização. É no momento em que reconhecemos que “nem tudo eu posso” e que “há outros com sentimentos e pensamentos diferentes de mim”, que podemos exercer a sociabilidade, fazer civilização.


Direcionar a pulsão para fazer exercício de convivência social é um dos temas fundamentais na teoria freudiana. Sem essa contenção, essa limitação (que participa da construção da base do superego) não conseguiríamos viver em sociedade e não existiria cultura.


Da mesma forma que, quando a lei familiar, as regras, as limitações e repressões nos indicam: “você não é tudo e não pode tudo”, temos a oferta do desejar. Pode-se desejar e construir criativamente sobre esses desejos.


Na nossa constituição, os caminhos pulsionais delimitados vão contribuir para que possamos tentar dizer quem somos ou como gostaríamos de ser. Por isso, abrimos mão de satisfações imediatas para construções e satisfações mais bem elaboradas.


Atualmente, o que parece é atuação do princípio do prazer, onde a descarga pulsional direta não carrega em si nada de criatividade, nem nenhuma sublimação. É a satisfação pela satisfação. O indivíduo quer, ele faz. Acredita no direito de fazer o que quer, pois tudo lhe é permitido numa sociedade individualista.


Infelizmente, o que vemos é a negação da limitação e do direcionamento como forma de convivência social e mais, como possibilidade de laços mais efetivos e afetivos, e como construção de criatividade.


Somos um conglomerado de pessoas – individualistas – que pouco se importa com os laços sociais, pois estes já não fazem eco na formação. Nega-se o outro como nega-se a sociedade, pois o que importa é a satisfação individual. O indivíduo enquanto ser único se fortalece, enquanto o sujeito, enquanto ser da falta e social desaparece.


Mas nossa cultura não propaga somente o individualismo, também amplia a necessidade do espetáculo como forma de ser e existir na sociedade. E com essa mistura nasce um sujeito que se guia pela satisfação pessoal, anulando ou culpando o mundo pelas suas não conquistas e espetacularizando seus pensamentos e ações.


Dessa junção – individualismo e espetacularização – temos a fórmula de como o sujeito se relaciona consigo e com o outro. Não é incomum as pessoas reclamarem dos outros porque esses “outros” só fazem o que querem, desrespeitam, não se responsabilizam, sem perceber que fazem o mesmo. Por outro lado, cada vez mais pessoas têm a necessidade de tudo mostrar ao público: o cafezinho, o almoço, a roupa nova, o carro, a viagem maravilhosa. Isso, contribui para a atual confusão público/ privado e para o entendimento de uma pseudo felicidade e superioridade que vive aquele “eu” que tudo compartilha.


Mas o adolescente de hoje é infeliz! É infeliz porque acredita que tudo pode, pois lhe será dado. É infeliz porque não tem a possibilidade de desejar e ser criativo. É infeliz porque não tem a chance de boas transgressões. Há algo que o adolescente de hoje não sustenta. Estruturalmente não sustenta - não sustenta o que se é e nem sua relação com o outro.


Enquanto, as leis e as regras forem vistas como inimigas da constituição do sujeito, enquanto o discurso do “tudo eu posso” se sobrepor ao “olhar o outro” e enquanto os prazeres tiverem o “dever” de serem satisfeitos negando a realidade e a sociedade, continuaremos a assistir atuações pulsionais em forma de comportamento social, seja na agressividade da violência, na luxúria do sexo fácil e liberto, na negação do outro e na supremacia de um “eu” vazio.

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