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  • Elizandra Souza

Os filhos devem crescer

Quão difícil é desgarrar dos filhos! Quão difícil é aceitar que o crescimento deles depende, também, de nosso afastamento. As dúvidas mais despertadas nos pais se colocam sobre as questões do futuro. Enquanto são pequenos e estão submetidos aos nossos cuidados especiais, somos considerados o mais seguro dos portos, e temos a crença, quase que numa fé absoluta, de que estamos fazendo a coisa certa.


Contudo, ainda o que mais se sobressai é a dúvida e o medo.  Em torno disto, e da certeza de que sabemos o que é melhor para os filhos, assumimos a posição de super protetores mesmo sem admitir, ou mesmo que esta superproteção não seja visível. Infelizmente, hoje, apresenta-se uma geração de jovens que não consegue fazer suas escolhas, tampouco, consegue vislumbrar um futuro de forma consciente e coerente.

Quando fazem escolhas, partem, principalmente de uma confrontação com os pais - que não é nenhum modelo novo de sobrevivência na adolescência, cujo aspecto social mais relevante e comentado é o dito "ser do contra".  E quando vislumbram um futuro, ainda se apoiam nas fantasias infantis, que tinham o aporte dos adultos cuidadores - lá quando estes eram super-heróis. A confusão não está só no pensamento e no comportamento dos filhos. A posição de pai e mãe também sofre com a falta de delimitação.  

O que é ser pai? O que é ser mãe? Até quando deve-se carregar os filhos "no colo"? E de que colo é este que falamos? Provavelmente, todos nós temos um exemplo de pais (ou outros responsáveis) que "carregam filhos nas costas"- e isto não é dar colo. São estes filhos - adolescentes e jovens - que vivem num misto de ser ou não ser adulto.

Filhos não crescem, não amadurecem sozinhos. Dependem em parte da posição dos pais, que ainda inseguros e agarrados aos seus medos, pretensiosamente tentam garantir uma gestação eterna – os filhos são colocados sob as asas dos pais. Mas depende também de como os filhos articulam internamente os ensinamentos oferecidos pelos pais.

Há preocupações tão antigas quanto o fato de ser pai e mãe, como: o que serão de meus filhos? Será que estou fazendo o certo? Qual é a melhor educação? E mesmo com tantas perguntas, tantas respostas, tantas buscas, ainda assim teremos a indagação: onde foi que eu errei? É difícil entender que o que idealizamos enquanto pais (e/ou responsáveis) não são expressos obrigatoriamente e diretamente nas respostas – físicas, comportamentais, psicológicas, intelectuais – de nossos filhos.

Acreditamos mesmo que somos únicos criadores, que a formação só depende de nossa vontade. E apesar de termos sido um dia vistos como super-heróis, como seres superiores e até mesmo "santificados", um dia esta imagem se desfaz – e isto é bom! Pois é neste momento que os filhos são permitidos a crescer. É neste momento desconstrutivo da imagem de superioridade absoluta que eles se desgarram e podem assumir suas vidas, seus caminhos! E diremos: "tão novos!", "tão imaturos!". Mas, para os pais sempre serão os ‘filhinhos'.

Estes movimentos entre heróis e anti-heróis, em que os pais se encontram, acontecem ao longo do desenvolvimento de qualquer sujeito – e sempre irão se reportar às marcas iniciais (aos cuidadores). Mas deixar de ser supremo não significa, em hipótese alguma, deixar de ser fundamental, necessário, porto seguro. Somos sujeitos, que tomamos decisões e acreditamos que podemos fazê-las até para nossos filhos (como se pudéssemos tomar seus lugares) porque temos angústia, temos dúvidas e temos escolhas.

O problemas estará sempre em administrar tudo isto – cada escolha, uma renúncia. Não é possível ser tudo, não é possível ter tudo. Esquecemos de que já fomos crianças e adolescentes, que já retrucamos aos mandos paternos, que já desconsideramos e já decidimos o oposto somente para contrariar – e isto nos fez ser o que somos – ter autonomia, de certa forma, mesmo escolhendo o que não nos foi proposto como melhor. Ora dá certo, ora dá errado.    

O problemas é admitirmos que erramos . E sempre erramos. Não existe manual de boa formação educacional familiar. Não existe receita de ser bom pai ou boa mãe (aliás quantas vezes erramos até com as receitas de bolos e tortas). Somos sujeitos carregados de elementos formativos. Ainda que por muitas vezes desejamos que os sujeitos já nascessem prontos para serem independentes e autônomos, que graça teria? Na realidade não haveriam sujeitos, haveriam pessoas-objetos que expressariam as mesmas coisas, que responderiam da mesma forma sobre todas as questões, como robôs programados.

Valores, conceitos, regras permitem que delimitemos aspectos essenciais da vida, mas a dúvida e a angústia ainda resistirá. Entre o bem e o mal, o certo e o errado, o bom e o ruim, o sim e o não há relatividade, mas há também elementos constitutivos que permitem que a complexidade da vida seja elaborada.

Estes elementos podem ser chamados de bases estruturais, sem os quais as elaborações mais complexas não acontecem. É como aprender uma equação matemática que só é possível se aprendermos os números, a contagem, as simples somas e subtrações. Tanto quanto é para compreender um texto, ler um livro ou escrever uma história. Sem a internalização das letras isto nunca seria possível.    

Por isso, não tenha medo de mostrar o que você acha que é certo ou errado, o que você acha que deve ou não deve. Não tenha receio de mostrar seus valores e aquilo que acredita. Isto não significa que os filhos farão ou pensarão tal e qual os pais. Mas significa que estão recebendo elementos constituintes, que posteriormente serão usados para expressão na vida. Do mesmo jeito ou de maneira oposta, tudo o que é aprendido e apreendido nos primeiros anos de vida conduzirão a maneira de ser e de pensar de nossos filhos.

Não há educação sem elementos bem definidos, sem delimitação, sem estrutura - e mesmo assim tudo isto não é garantia de sucesso. Não carregar os filhos na costas, é permitir que ele assuma sua posição adulta, sua responsabilidade e a consequência de suas escolhas. Mas isto não configura negação de "colo", de acolhimento.

Estar por perto para aconselhar não é escolher por ele, é amparar nos erros, tropeços e frustrações, sem achar que pode dar um ‘jeitinho', que pode anular o sofrimento dele. Os filhos devem saber encontrar soluções maduras, conscientes e concretas como demonstração de possibilidade de ações adultas. Ao contrário, esconder-se de suas atitudes e responsabilidades é um movimento infantil.

Talvez um dia teremos que apontar um erro de nossos filhos, dizendo "sim"você errou e a responsabilidade é sua. Consolar não é redimir a culpa. Nenhum pai/ mãe/ responsável que ver seu filho sofrendo e errando, mas é bom lembrar que somos adultos e sofremos e erramos e nos frustramos e, enquanto adultos, ninguém vem nos salvar - a fada encantada ou o super-herói não surge para fazer desaparecer os causadores de nossas angústias.