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  • Foto do escritorElizandra Souza

Inteligência Artificial e Psicanálise

A grande questão hoje é: A Inteligência Artificial pode substituir o homem? Ou até que ponto a IA participará da destruição do humano?

Muitas pessoas apresentam medo e angústia com a possibilidade de serem substituídos nos seus trabalhos e profissões pelas facilidades e maximizações de atividades que a tecnologia apresenta diariamente.

É inegável que a inteligência artificial revolucionou nossa forma de viver. Rotinas que antes tomavam horas agora são feitas em questão de segundos. A comunicação transcendeu barreiras geográficas e a informação flui como um rio incessante de bits e bytes.

A ideia de que tarefas que antes demandavam muito tempo e esforço físico e mental, hoje, pela tecnologia foram simplificadas e são realizadas mais rapidamente, teoricamente liberando tempo e espaço para outras atividades mais prazerosas ou divertidas.

Porém, o que vemos na prática é o sujeito cada vez mais dependente e, por vezes, escravo da tecnologia. É como se a autonomia do homem estivesse sendo substituída pela IA. E daí, pensar numa substituição completa não é um medo tão distante.

Mas antes de falar dos medos, vamos pensar na semelhança na forma de conexões que visam a construção de algo dos humanos e das Ias. Nossos pensamentos, nossos comportamentos, até nossa criatividade não aparecem do nada. Como Freud nos ensina que existem elementos que são introjetados (representação-coisa e representação-palavra) de forma inconsciente, ou seja, que não nos damos conta, mas que em associação funcionam como o algoritmo da Inteligência Artificial.

Tanto o psiquismo humano como a IA funcionam por conexões e associações, muito relacionado a uma tendência quantitativa. A Concepção Quantitativa é o primeiro teorema principal proposto por Freud no Projeto para uma Psicologia Científica (1895). Por meio dela, o autor busca explicar os processos mentais com base na quantidade de energia psíquica e sua distribuição no sistema nervoso.

Contudo, Freud, ainda no Projeto já indica uma diferenciação (a priori), mesmo sem ter nenhuma aspiração futurística, que é a quantidade relacionada à energia e não somente ao número de elementos passíveis de associação. Segundo essa teoria, a mente funciona como um sistema de energia em constante fluxo, e o objetivo fundamental é a redução da tensão psíquica. Essa energia psíquica é produzida por estímulos externos e internos e se distribui pelo aparelho psíquico, passando por várias vias neuronais. Freud argumenta que essa energia pode ser transformada e redirecionada no sistema nervoso, buscando sempre a descarga e a satisfação.


Processos, como estímulos, substituição, conversão e descarga que tiveram de ser ali descritos [em conexão com esses distúrbios], sugeriram diretamente a concepção da excitação neuronal como uma quantidade em estado de fluxo. (Freud, 1895)


A construção e conexão dos algoritmos das Inteligências Artificiais seguiu uma notável semelhança com o processo de formação do pensamento humano, que também se desenrolou através da conexão de elementos introjetados, principalmente palavras e conceitos. Essa analogia revela a profundidade da inspiração que os criadores de IA têm buscado a partir do funcionamento intrincado do psiquismo humano.

Assim como o pensamento humano se origina da interação de neurônios, as IA são feitas a partir de redes construídas, estruturas complexas que simulam os padrões de conexões neuronais. Nos seres humanos, a linguagem é a ferramenta central para a expressão do pensamento e a comunicação de ideias. Da mesma forma, as IA dependem de algoritmos que processam e interpretam a linguagem para compreender e gerar informações.

O que muitos esquecem é que a inteligência artificial, apesar de toda sua eloquência digital, é nossa própria criação. Somos os artífices por trás dos códigos e circuitos, moldando-a à nossa imagem e semelhança. Se ela floresce, é porque somos os jardineiros. Nossos temores, ao invés de nos enfraquecerem, deveriam nos instigar a navegar esse mar tempestuoso da inovação com olhos críticos e um coração curioso.

Assim como o pensamento humano pode ser influenciado pela contextualização e pela experiência pessoal, as IAs são capazes de ajustar suas respostas e decisões com base nas informações específicas a que foram expostas. Isso cria um paralelo com a capacidade humana de adaptação e aprendizado contínuo, uma vez que ambas as entidades podem modificar suas conexões internas para se adequar a novos cenários.

E é nesse ponto que o medo e a angústia de ser substituído encontra lugar. Criamos algo a nossa semelhança, quase uma brincadeira de Deus e agora, vemos o quanto somos dependentes dessa criação, pois nos submetemos às facilidades oferecidas, diminuindo pouco a pouco nossas qualidades humanas, como se localizar, buscar respostas mais complexas, buscar formas eficientes de comunicação com o outro humano (hoje os “robôs” se comunicam no nosso lugar), buscar soluções criativas.

A facilidade em obter resposta pronta faz com que o custo do pensamento e da criação sejam enormes, e nossa tendência (pulsional) ao nadismo, ou seja, tentar manter o psiquismo sem tensão, sem energia que incomoda. Quanto menos tensão, mais sensação de satisfação.


Se combinarmos essa descrição dos neurônios com a concepção da teoria da Q, chegaremos à noção de um neurônio catexizado, cheio de determinada Q, ao passo que, em outras circunstâncias, ele pode estar vazio. O princípio da inércia encontra expressão na hipótese de uma corrente que parte das vias de condução ou processos celulares [dendritos] em direção ao cilindro axial. Cada neurônio isolado é, assim, um modelo de todo o sistema nervoso, com sua dicotomia de estrutura, sendo o cilindro axial o órgão de descarga (Freud, 1895).


No entanto, é importante observar que, embora haja semelhanças entre a construção dos algoritmos das IA e a formação do pensamento humano, esses processos ainda são distintos em muitos aspectos. As IA são produtos de engenharia que buscam replicar algumas características do pensamento humano, mas ainda carecem da verdadeira compreensão e consciência associadas à mente humana.

A psicanálise e a inteligência artificial, cada uma à sua maneira, trazem à tona questões fundamentais sobre o que significa ser humano. Nesse diálogo entre a profundidade dos afetos e a promessa das máquinas, reside a oportunidade de uma parceria enriquecedora. Pois, assim como a psicanálise nos ensina a abraçar nossas complexidades emocionais, a inteligência artificial nos recorda que somos os mestres da criação, capazes de construir um mundo onde a tecnologia pode servir como uma aliada e um instrumento confiante para outras conquistas.

Mais do que sermos substituídos pelas IAs, deveríamos nos preocupar com nossa dimensão humana, ou, o quanto nos desconstruímos como sujeitos em função das facilidades dessa artificialidade. O quanto estamos nos submetendo, pelo simples fato de sermos também regidos pela pulsão de morte, aquela que visa a descarga total (o nada fazer, nada pensar), a morte do sujeito, que já não pensará, nem responderá por si mesmo.

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